Projeto Desorientado

Setembro 16, 2009

Arquivado em: Desvaneios — projetodesorientado @ 11:19 pm

Ontem sonhei. Lembro-me de estar procurando meu reflexo em um espelho turvo. Esta não é minha imagem, esta não sou eu. Procurar por si própria e não encontrar, correr papalela ao espelho turvo sem fim. O desespero dói, e o cansaço, não há ninguém, em lugar algum, apenas o meu eu, refletido, deformado, pertubador, correndo ao meu lado, como uma sombra, como um carma…

Agosto 30, 2009

Arquivado em: Desvaneios — projetodesorientado @ 7:51 pm

Os que sentem medo da melancolia noturna não dormem pelo dia. Não se mede o que é ausência:  Vazio imensurável.  Tenho altura de quanto?  Não se sabe.  Me limito a apenas querer, e se alguma vez  me atrevo e me permito, me perco, e, se me encontro, volto a me prender. Desisti de minhas asas que seriam apenas as desenhadas. Padeço pelo desejo de voar.  Padeço.

Nada se sabe sobre o final do vazio, nem se o vazio tem final. Eterno padecimento? Se soubesse, pintaria um mar:  Uma pequena faixa verde-azulada clareada pelo sol, seguida de cinza-avermelhado até onde o pincel pudesse alcançar.  Não posso pintar a noite, não posso me expor. Ouça “Hurt”. Trent Reznor estava totalmente em si quando a compôs, assim como Johnny Cash quando a cantou.  Me fez chorar. Há partes de mim que desconheço, na maior parte do tempo, estou fora de mim. Por isso padeço? Minha pintura teria ainda alguns personagens, mas apenas um estaria semi-imerso num mar cor de cinza.  Não o vejo debater-se. O vejo imóvel, deixando-se levar, Em sua mão uma fotografia, uma carta, uma página de um livro, uma música?  Não sei ao certo o que seria, deixo isto a cargo de quem a imagina.  Não sei pintar, é uma pena. Seria uma bela pintura, um tanto melancólica:  hoje dormi pelo dia.

Agosto 27, 2009

“Nunca o teatro irá reproduzir a vida, que se reinventa a cada instante”

Arquivado em: Outros autores — projetodesorientado @ 9:16 pm

“…  Considero-me um realista, mas sou realista não à maneira naturalista — que falseia a vida — mas à maneira de nossa maravilhosa literatura popular, que transfigura a vida com a imaginação para ser fiel à vida. Não tem sentido,
portanto, dadas as características de meu teatro, dizer como disseram alguns críticos ilustres, que é inverossímil que um avarento ignorasse uma  operação bancária e perdesse, assim, seu tesouro. Em primeiro lugar, mesmo que isso fosse impossível na vida, não o seria em meu teatro, onde um cangaceiro se deixa enganar por uma flauta e um conto-do-vigário — no caso, o Padre Cícero — e onde os anjos se vestem de judeus e os diabos de frades ou de vaqueiros; e em segundo lugar, mesmo na vida, o caso é tão possível que aconteceu; foi em Taperoá, com uma pessoa avarenta, por sinal pertencente à minha família. Na agência do Banco do Brasil, em Campina Grande, onde ela foi trocar seu dinheiro, avisada por um tio meu, juntou gente para ver aquelas notas, guardadas durante tanto tempo que ninguém as conhecia mais.
O que eu procuro atingir, portanto, é, se não a verdade do mundo, a verdade de meu mundo, afinal inapreensível em sua totalidade, mas mesmo assim, ou por isso mesmo, tentador e belo, com seu sol luminoso e selvagem, tão selvagem que não podemos vê-lo …”

Ariano Suassuna – Parte da peça teatral : O santo e a porca. ( que se tornou um livro do autor )

Julho 29, 2009

Planos frustrados.

Arquivado em: Desvaneios — projetodesorientado @ 1:07 am

Isto tudo pode até ser apenas mais uns dos meus sofrimentos por antecipação. Mas na verdade, o  verbo planejar é que um tanto complicado.  A questão não é o ato do planejamento em si,  a questão é que o verbo planejar não é pleno, não se aplica a tudo. Antes se aplicasse, assim me veria livre dessas preocupações absurdas e ridículas que me incomodam a ponto de me tirar o sono: coisa que perco sem nem haver bons motivos o suficiente.  Em que circunstâncias os meus desejos devem vir a mim ou eu devo ir até eles?  Nunca fui boa na arte de me fazer entender, muito menos na arte de me fazer aceitar.  Há tempos  estou cansada e só agora me dei conta disso.  Me habituei com esse meu movimento retilínio uniforme e não me dei conta do momento que cansei.   Nunca estive completamente vazia.  Nunca estive completamente cheia. Nunca soube no que acreditar de verdade: o que deveria abraçar com todas as minhas forças. Ainda continuo sem saber. Não sei até onde sou um imã natural para coisas boas. Talvez até saiba, e esteja um tanto decepcionada com a resposta.  Péssimo é esse hábito tentar tornar absolutamente aplicáveis os verbos relativos.  Nem tudo se planeja! Nem tudo eu sei planejar. Onde estão os talentos que eu gostaria de ter?  Acho que só me ensinei a correr atrás da metade das coisas que realmente quero.  Me planejei pela metade.  Sempre estive parcialmente vazia,  sempre estive parcialmente cheia. Meio a meio e vice e versa.

Julho 21, 2009

Clarice pode explicar minha ausência…

Arquivado em: Clarice Lispector — projetodesorientado @ 9:19 pm

“… Estou  em um estado  muito  novo  e  verdadeiro,  curioso  de  si  mesmo,  tão
atraente  e  pessoal  a  ponto  de  não  poder  pintá-lo  ou  escrevê-lo.

Quero  escrever-te  como  quem  aprende.  Fotografo  cada
instante,  aprofundo  as  palavras  como  se  pintasse, mais  do  que
um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se
perguntar  sempre  por  que  e  sempre  continuar  sem  resposta:
será  que  consigo  me  entregar  ao  expectante  silêncio  que  se
segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em
algum  lugar  ou  em  algum  tempo  existe  a  grande  resposta  para
mim …”

Junho 27, 2009

Conto (ainda sem título)

Arquivado em: Contos — projetodesorientado @ 6:58 pm

Por Fabiane Queiroz

Parte 2

Luiza

Ela estava sentada, ao meu lado, tinha olhinhos pidões, contudo eles não me provocaram nenhum tipo de sentimento de caridade.

Cabelos num tom castanho escuro meio avermelhado, olhos grandes e castanhos, pele branca, um sorriso tão pequenininho, mas encantador.

Seus olhos alternavam entre mim, a pista de onde ela esperava seu ônibus, o caderninho cor de rosa na sua mão e todas as outras coisas e pessoas que nos cercavam, nada escapava de seu olhar ligeiro e curioso.

A forma com que ela me olhava fixamente, por momentos menos breves do que os momentos que  ela dedicava as outras coisas ao nosso redor, havia nesse olhar tanta expectativa, que me fez sentir, por alguns minutos, uma verdadeira pedra filosofal, um oráculo, ou coisa parecida. Sentimento esse que se transformou no seu completo oposto assim que começamos nosso diálogo quase monólogo.

Suas primeiras palavras foram um tanto óbvias, bem peculiares a uma criança da sua idade, contudo isso não durou muito tempo.

- O senhor sempre pega o ônibus no mesmo horário que eu.  Minha mãe sempre me advertiu a nunca conversar com estranhos, mas acho que o senhor não é tão estranho, afinal, dividimos o mesmo banquinho todos os fins de tarde, então eu acho que não estou “toda” sendo desobediente, talvez esteja sendo apenas “meia” desobediente. Já somos conhecidos um do outro, mais um passinho, e podemos então ser amigos. Eu me chamo Luiza, como a Luiza do Tom Jobim, o senhor conhece o Tom Jobim, já ouviu a música “Luiza”? É bem bonita! Ele já morreu, mas meu pai disse que ele era um gênio da música, e por isso me chamou de Luiza. Tenho sete anos e já estou na segunda série. Eu gosto do meu nome, não foi difícil aprender, minha mãe disse que com um ano e meio eu já sabia falar meu nome direitinho, e antes mesmo de começar a alfabetização eu já sabia escrever e dizer para todo mundo  que meu nome tinha cinco letras. Como o senhor se chama?

- Você sabe qual o nome verdadeiro do Tom Jobim?

- Antônio!

- Esse é o meu nome.

- Uau! que coincidência! Posso te chamar de Tom então?

- Claro.

- Quantos anos você tem Tom?

- Sessenta e três anos, e já concluí a segunda série há algum tempo.

- A segunda é uma série difícil, o senhor não acha? Principalmente matemática.

- Concordo com você. Realmente é muito difícil.

- Mas a professora nos falou que é muito importante aprendermos matemática, essa é a única coisa que é igual pra todos no mundo todo. Eu  acho isso legal, mas sabe o que eu acho mais legal ainda?

De repente, sua voz baixou algumas oitavas e eu precisei  me aproximar dela um pouco mais, me curvando para conseguir ouví-la.

- O número dois será sempre o único número par primo…

E num estouro, e algumas oitavas acima do normal:

- Pra sempre! Isso não é fantástico?!

Eu me afastei dela num pequeno susto, sorrindo. Enqanto ela repetia, com sua vozinha já num tom mais ameno:

- O número dois será sempre o único número par primo, pra sempre!

- Sim, é realmente fantástico.

- Eu não sei se mais alguma outra coisa, além dos números e todas aquelas contas, dura pra sempre. Algumas pessoas falam que a gente dura pra sempre, mas eu nunca conheci ninguém com mais de cem aos para poder comprovar isso, nunca fui ao céu e nunca vi um anjo de verdade. Você já viu algum anjo, Tom?

- Não querida, nunca vi.

- É, eu sabia. Eu não acho que as pessoas durem para sempre, e se duram, elas não querem que a gente acredite nisso de verdade.

- Talvez elas não queiram que acreditemos por preferirem que realmente não pensemos nisso. Observe: você consegue se concentrar numa coisa, se está sempre pensando em outra?

- Não, acho que não.

- Talvez os anjos queiram que nós fiquemos concentrados em nossas vidas, ao invés de pensar em outras vidas futuras, você não acha? Se não estivermos concentrados em nosso presente, como podemos usufruir dele?

- É você pode estar certo. Esperto! Tanto você, quanto os anjos.

- Tenho muitos anos de vida na sua frente mocinha, é minha obrigação ser mais esperto. Quanto aos anjos, alguns devem ter milhares de anos a nossa frente, logo, estranho seria se eles não fossem espertos, o tempo nos deixa bem espertos.

- O tempo! Não é o que há de mais fantástico nesse mundo e nos outros mundos também? Eu falo outro mundo porque acho que existem outros por aí, o senhor não acha?

Enquanto eu demorava em minha resposta, fugindo da distração de seus incríveis olhinhos intrigantemente curiosos, tentando formular uma resposta inteligente, simples e elegante o suficiente para responder suas duas perguntas que mais pareciam uma só, ela, impaciente, transforma sua pergunta numa afirmação.

- Às vezes penso que deus é o tempo. Firme, decisivo, infinito nas duas pontas. Minha mãe me ensinou que a bíblia diz que  no princípio era o verbo, e o verbo se fez deus e o verbo era deus. O senhor já parou pra reparar no quanto isso é estranho? Um verbo se tornar uma pessoa, que na verdade não é uma pessoa, é um ser sem início e sem final. A única coisa  eterna que acredito que não tenha início nem final é o tempo, porque a matemática teve início, então se deus não é uma pessoa, certamente ele é o tempo. Minha mãe fala que pensar assim é pecado, mas eu não consigo evitar “pensar”. O senhor consegue evitar pensar?

Pela primeira vez deixo meu ônibus passar direto.

Junho 24, 2009

Conto (ainda sem título)

Arquivado em: Contos — projetodesorientado @ 2:22 pm

Por Fabiane Queiroz

Parte 1

Um velho

O que temos aqui é um velho,  cheio de histórias e estórias,  cheio de dias bem nítidos em sua maioria. Um poço, velho, mas cheio.

Lembro-me nitidamente dos meus dias,  quase todos eles,  exceto claro,  os de minha infância “inconsciente,”  ou então  aqueles dias que atravessei embriagado. Estes últimos foram dias espalhados no decorrer de minha vida, contudo,  significativos;  se conseguisse juntá-los num espaço contínuo de tempo, acumularia mais de dois anos sem lembranças.

Você já ouviu falar em entorpecência descontínua?  É análogo a um abismo em fragmentos. Uma prova incontestável de que o surreal é real.

Não que eu goste disso, mas como um velho que sou,  sinto  verdadeira obrigação de ser uma fonte de bons conselhos:  Não presenteie a ebriedade com suas lembranças, quando você vai se aproximando, lento, do final, percebe a quantidade de vida útil que foi perdida.

O barulhinho dessa cadeira de balanço – ganhei de presente no dias dos pais há uns cinco anos – tem tornado os meus dias bastante longos.   Um “nheco-nheco” que funciona como um lembrete repetitivo;  um barulho que combina com minha velhice, com minhas outras cadeiras , com minha cama e com minha coluna.

Não tenho pretensão alguma de te roubar o tempo e os ouvidos com histórias tediosas e um tanto mentirosas sobre pescarias,  nunca gostei de pescar.

Gostaria de compartilhar um dos meus dias com você, há muitas histórias nele, acredito que seja interessante ouvi-las, arrisco até uma promessa que não serão tediosas.  Eu acho.

Junho 22, 2009

Noticiando…

Arquivado em: Noticiando — projetodesorientado @ 10:31 pm

Reflexo.

Arquivado em: Fotografia — projetodesorientado @ 9:40 pm

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Reflexo : reação corporal automática à estimulação.

Um postagem para iniciar uma nova categoria no blog:  Fotografia.

Se sou sou absurdamente amadora com meus textos, minhas fotografias nem consegem ser adjetivadas ( o “absurdamente amadora” seria um elogio). Mas meu amadorismo não me impede de ser uma apaixonada.

Uma recomendação.

Arquivado em: Filmes — projetodesorientado @ 3:31 am

http://www.collider.com/uploads/imageGallery/Children_of_Men/clive_owen_children_of_men_image.jpg

Children of Men.

Um excelente filme.

http://www.imdb.com/title/tt0206634/

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